Habitar o contraespaço: impressões curatoriais

por Tarsis Almeida Ribeiro*


A exposição Habitar o contraespaço apresenta obras do coletivo de artistas filipe s. souza; henrique tavares; jaíne muniz; júlia ramalho; letícia fraga, luan jacinto; maria galacha; matheusa moreira e pablo vieira. Com curadoria de bárbara de oliveira, é realizada na Casa Porto (Vitória -ES), de 14 de outubro a 19 de dezembro de 2022. A escolha de escrever sobre essa mostra se deu por dois motivos. Primeiramente, por se tratarem de artistas “locais” e oriundos da mesma universidade que eu. Temos então um vínculo de território; além disso, já havia visitado a exposição Terrenos Internos na Gap (com trabalhos de uma parte dos mesmos artistas), o que acendeu uma fagulha. O segundo motivo é o de afetos e sentimento de pertencimento. Não só por sermos da mesma universidade, mas também pelas obras serem de um mundo interno onírico, uma vez que cada artista/expositor impinge suas metafísicas nos trabalhos realizados.


O que nunca morre na psique? Como esse resto retorna?


Habitar o contraespaço versa sobre as potencialidades do corpo enquanto estrutura una, sem dicotomia, que constantemente se expande, como o cosmos. Toma o corpo, o contraespaço como campo de batalha, evidenciando que as estruturas sistêmicas o impossibilita de Ser-horizonte. As obras são produzidas por uma metafísica dos desejos para serem lidas por outros desejos, tomando para si as vivências de cada artista refletida nas obras, convidando a todas as pessoas que visitam Um Lugar Seguro para se entre-lançarem em uma dança de Corpo/Móvel em Concreto, de modo a perceber-se a si mesmo no espaço enquanto um corpo no mundo. Propõem revisitar espaços que nos são intrínsecos, como tentativa de tomar para si uma subjetividade contra hegemônica.



corpo/móvel, Julia Ramalho, Instalação, 2022. Registro fotográfico por Tarsis Ribeiro.

habitar o contraespaço reivindica não só o corpo, mas também a arte como território para se pensar novas formas de devir. Possibilita um contato mais direto entre territórios que muitas vezes desconhecemos as potencialidades, para assim ensejar alianças. Faz da vida a maior obra de arte. "Só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente" (NIETZSCHE, 1992, p 47). A proposição ontológica em muito se assemelha à vontade cega e insaciável, força para além dos nossos sentidos. Una, ela representa tudo que vemos, sendo o substrato que constitui a existência. Segundo Nietzsche a vontade não está fora do mundo, ela se dá na relação, é múltipla e se mostra como efetiva e real. Sendo impossível uma força única e indispensável, a vontade de potência nietzschiana se diz sempre no plural. Em assim sendo, o mundo seria uma luta constante, sem equilíbrio possível, apenas tensões que se provam pelo movimento, às vezes delicado, outras vezes violento (NIETZSCHE, 2002; NIETZSCHE, 1992; PESSOA, 2022).



sobrenado, Filipe S. Souza, Poema instalação da série Cartas Atlânticas, 2022. Ser-horizonte, Jaíne Muniz, Instalação da série Espaços para desmaterialização humana, 2022. Registro fotográfico por Tarsis Ribeiro.

Os trabalhos Ser-horizonte de Jaíne e Sobrenado de Filipe são, ao meu ver, duas obras que revelam não só a proposta curatorial, mas também a relação das obras como um todo dentro da mônada que é o cubo branco. Dispostas uma de frente para a outra, as canoas do poema instalação, apontam como uma constelação o caminho do horizonte, não mais como uma linha horizontal, mas verticalmente, possibilitando a percepção constante de expansão. Ser-horizonte condensa a leveza do Ser e a taciturna linha do horizonte em tecidos voil que lembram o tênue azul do mar e a vastidão do "vazio" - podemos entender esse vazio como um espaço de criação: ex nihilo nihil fit - do horizonte. Nesse sentido, as primeiras linhas do poema de Filipe estabelecem um diálogo mútuo, fazendo ponte entre seu contraespaço e o de Jaíne.



sobrenado, Filipe S. Souza, Poema instalação da série Cartas Atlânticas, 2022. Registro fotográfico por Tarsis Ribeiro.

A instalação de Filipe, exige um cuidado de costura no papel craft, que conecta três partes a um todo, que vai da terra ao céu, ou o seu contrário. Já não mais importa, os mistérios que cercam. Hamlet não exita e abraça seus fantasmas com afeto. O poema é a transcrição - tomo de empréstimo aquilo que Walter Benjamin chama - da "Aura" de um momento hic et nunc, uma teia singular repleta de elementos espaciais e temporais. Que traz para perto a sensação de nadar nu no mar. O repouso que tal exige se materializa na cadeira preta de ferro da instalação de Luan, mostrando que o mar também pode ser um lugar seguro. Para navegar em oceanos turbulentos é necessário um barquinho de papel.


As obras são dispostas de forma a criar terrenos internos, partilhados pelos artistas de forma poética para que se estabeleçam alianças entre o que ali é partilhado. A expografia posiciona os corpos nessa experiência estética de partilha dos espaços de comunicação. Lembra que a arte é esse comunicado que vai além de imagem/palavra, permitindo uma visão transdisciplinar de corpos que transitam entre-mundos. As obras são dispostas de forma a convergirem em um todo que se alimenta de cada experiência individual, que se nutre como uma planta. Cria assim uma experiência de pertença com a integração das obras no espaço e visitantes.


Os registros poéticos das obras são de uma leveza cirúrgica das vontades de potência latente em cada um de nós. Cada obra é uma vontade que, em cada espaço destinado, constrói sua potência, mas não se restringe. Ela está presente em tudo, que vai da mais simples reação química até a psique humana. As obras se relacionam de forma a expandir-se, superar-se, juntar-se às outras e tornar-se maior. Guiada pelos restos, a exposição permite aos corpos visitantes uma outra consciência da corporeidade que possibilite aos humanos uma subjetividade não mais maquímica, que reconheça em si mesmo e no mundo os seus anseios de habitar o contraespaço.



Ser-horizonte, Jaíne Muniz, Instalação da série Espaços para desmaterialização humana, 2022. Registro fotográfico por Tarsis Ribeiro.

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Referências

NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal (tradução de Paulo César de Souza). São Paulo: Companhia das Letras , 2ª ed. 2002.


NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia (tradução de J. Guinsburg); São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

PESSOA, Fernando M. Aulas sobre o prólogo de O nascimento da tragédia. Pessoaypessoa. Disponível em <http://pessoaypessoa.blogspot.com/2019/12/aulas-sobre-o-prologo-de-o-nascimento.html?m=1> Acessado em: 19 de novembro de 2022.


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* Tarsis Almeida Ribeiro é estudante de Filosofia na Ufes.

Este texto foi desenvolvido na disciplina Práticas curatoriais, história(s) de exposições, ministrada pela Profa. Ananda Carvalho.