VII Diálogos com Educação e Artes: Como sistemas da Arte pensam os seus públicos?

Com Yvana Belchior e Ananda Carvalho.


Relato por Jessica Dalcolmo e Lília Pessanha.


O evento Diálogos promovido pelo Núcleo de Artes Visuais e Educação do Espírito Santo - Navees ocorreu no Centro de Educação da UFES em 05 de setembro de 2019, sob a mediação da professora Julia Rocha. O encontro abordou questões referentes ao sistema da arte e seus públicos. Contou com explanações da artista plástica Yvana Belchior e da curadora e professora Ananda Carvalho, que buscam tencionar, cada uma com suas peculiaridades, as trincheiras entre arte, institucionalização e público.


Yvana Belchior reflete em sua fala sobre o lugar e a importância cultural, social e política de instituições independentes como o Emparede, espaço cultural que fundou e que coordena. Para complementar seus questionamentos, Ananda Carvalho apresenta problematizações referente às instituições formais e outras indagações circundantes ao sistema da arte.


Yvana Bechior inicia sua comunicação apresentando o Emparede Contemporânea – Arte, Cultura e Meio Ambiente, discorrendo sobre seu surgimento a partir da necessidade de expandir os espaços expositivos culturais. Situado no bairro Santo Antônio, em Vitória, a artista, aos poucos, transformou sua casa em espaço cultural: “depois de saturar os cantos e as paredes da minha casa, eu comecei a colocá-los na rua!”.


Emparede, Vitória, 2019. Fotografia por Lília Pessanha.

Para buscar melhores reverberações acerca do Emparede, realizamos uma visita ao local. Um pé de Bougainville com galhos retorcidos e uma imagem com técnicas de lambe lambe do artista Rogério Caldeira compõem um primeiro olhar. Arte natural e intervenção humana expostas, igualmente, às intempéries do tempo e ao manuseio. Como Belchior menciona, o diálogo entre obra e espectador se inicia antes mesmo de adentrarmos.


No intuito de criar uma galeria habitável e, concomitantemente, oposta aos preceitos referentes ao cubo branco, o objeto de arte passa a fazer parte do cotidiano sem as intervenções pré-estabelecidas (limitação de espaço entre espectador e obra, não interação com o objeto, paredes brancas) de um sistema institucionalizado. No Emparede, não somente os olhos são bem-vindos como também os corpos.


Emparede, Vitória, 2019. Fotografia por Lília Pessanha.

Outra questão levantada pela artista é a participação não somente do público especializado, mas abranger principalmente a comunidade local. O quintal e a sala de cinema surgiram como uma resposta desta necessidade. No quintal, o marido da artista iniciou, há 3 anos atrás, uma criação de abelhas sem ferrão, característica comum das espécies brasileiras. Ao vislumbrar uma possível interação da arte com o meio ambiente e a comunidade, o Emparede realizou, em 2018, o projeto ambiental “Do meu quintal para o mundo”, aprovado em edital, no qual a artista e seu marido ofereceram oficinas de manejo das abelhas e a doação de uma “mini colmeia” para mais 20 famílias. “São maneiras de dialogar com a comunidade para buscar uma aproximação e entendimento do que é o Emparede e sua importância” – menciona Belchior.


Outra forma de aproximação da comunidade ao Emparede é o audiovisual, exibindo filmes na rua ou em sua sala transformada em cinema, aberto para o público em geral. Aliás, essa é a principal premissa do espaço cultural: estar sempre acessível a todos.


Ao tratar das dificuldades acerca de uma instituição cultural independente como o Emparede, Belchior afirma que é um exercício de se reinventar o tempo inteiro na busca de meios para manutenção dos recursos e continuidade do mesmo. Para isso, criou-se uma lojinha com venda de produtos naturais gerados naquele mesmo ambiente, no caso, o mel e suas inúmeras variedades.

Área de cinema e área externa, Emparede. Vitória, 2019. Fotografias por Lília Pessanha.

Para trazer uma visibilidade à comunidade local, o Emparede realiza entre intervalos de uma exposição e outra, mostras com artistas da comunidade (artesãos, tatuadores, desenhistas). Esse procedimento tem o intuito de abrir espaço para essas pessoas e um momento de experimentação destes com o fazer/viver artístico.


Em paralelo, Ananda Carvalho traz para o Diálogos uma reflexão para além de uma abordagem academicista, pensando a curadoria em espaços ditos não convencionais ou independentes e a formulação de um sistema de arte. Dessa forma, ela apresenta um pouco sobre sua trajetória enquanto curadora e como foi seu processo de entrada no campo curatorial.

Registro do ‘VII Diálogos com educação e artes’. Vitória, 2019. Fotografia cedida pelo NAAVES.

Neste sentido, ela salienta que seu contato com a curadoria começou com a comunicação e passou por outros campos tangenciais. A partir de sua fala, podemos correlacionar a curadoria como uma rede transdisciplinar em diálogo com várias vertentes.


De modo a fomentar a conversa, Carvalho traz para a discussão um projeto realizado por ela em um espaço independente chamado Casa Tomada, localizado em São Paulo- SP, no ano 2012, em conjunto com Ana Maria Maia. Em meio a programação estabelecida pela instituição, as curadoras convidadas, propuseram uma leitura de portfólios com diversos artistas, visando discutir novas formas de apresentação e propondo uma redação de uma publicação, intitulado depois como "Sobre artistas como intelectuais públicos".


Por intermédio da leitura e exercício de tradução do texto Representation, contestation and power: the artist as public intelectual, do crítico dinamarquês Simon Sheikh e por duas indagações propostas, as curadoras tencionaram os artistas a refletir transversalmente sobre seu lugar de fala em meio ao sistema da arte. As perguntas propostas foram: Como seu processo artístico constrói-se como ato discursivo? E quem é você como artista intelectual público?


Carvalho salienta que as respostas dos artistas para as indagações elencadas foram diversas. Alguns responderam em forma de texto, outros com imagens, outros em forma de pergunta e outros enviaram seus próprios trabalhos. Entretanto para o Diálogos, Carvalho traz sua resposta para as questões levantadas, recorrendo a autores e colocando sua compreensão do sistema da arte como um sistema em rede, com pontos que se conectam.


Dessa forma, ao discutir o processo artístico como um ato discursivo e o artista como intelectual público, Carvalho amplifica interconexão entre comunicação, experiência, redes e processo de criação, transformando esses elementos em pilares basilares para pensar as potências criativas, criando diálogos expressivos e discursos em constante transformação, ou seja, o sistema da arte como uma rede aberta.


A partir das colocações levantadas, Carvalho chama atenção para os textos curatoriais, que, na sua visão, devem estar sempre abertos, convidando o espectador para vivenciar e estabelecer suas próprias conexões. Os participantes presentes no Diálogos apresentaram suas questões em relação aos textos curatoriais, abordando as implicações entre o que o sistema da arte fala e o que o público acessa. A partir da questão, Carvalho reafirma que o texto de parede deve ser uma explanação, nunca uma imposição de leitura única.

Outra questão aludida pelo público, foi sobre o papel do curador, figura que já faz parte de um sistema institucionalizado da arte e ao mesmo tempo, pode tencionar seu próprio meio. Para ela, cabe ao exercício curatorial ser sempre construído a partir do diálogo, propondo desconstruções, transformando as exposições em um ato social, para além dos limites institucionais, colocando foco na formação de conexões em rede.


Registro do ‘VII Diálogos com educação e arte’. Vitória, 2019. Fotografia cedida pelo NAAVES.

Por intermédio da indagação proposta, Carvalho evidencia o trabalho do Emparede como um exemplo de estreitar a arte em meio a vida, desmantelando paradigmas do sistema da arte tradicional. Neste sentido ela enfatiza também, o papel da mediação como uma ferramenta polivalente de dinamização dos meandros do complexo artístico.


Com base nas temáticas apresentadas, podemos correlacionar o trabalho de Ananda Carvalho e Yvana Belchior, pois ambas atuam como dirigentes decodificadoras e burladoras de fronteiras institucionais da arte, propondo uma expansão de conceitos com foco nas conexões. Dessa forma, o trabalho realizado se transforma em uma construção coletiva, para além da recepção estética, dialogando com questões circundantes a sociedade, em uma bricolagem entre a arte e a vida.


Texto disponível na íntegra: Download


Conheça mais sobre a prática de Yvana Belchior neste vídeo aqui e confira uma conversa recente de Ananda Carvalho com Bruno Moreschi nesse vídeo aqui.