Entrevista com Jaíne Muniz
- anandacarvalho
- 15 de set.
- 8 min de leitura
por Ester Matos, Edward Rodrigues, Arthur Nunes e Thiago Choas
A entrevista com a artista Jaíne Muniz foi gravada em áudio no dia 17 de maio de 2025, na Galeria Homero Massena, em Vitória. A artista foi entrevistada por um grupo de estudantes do curso de Artes Plásticas da Universidade Federal do Espírito Santo, para a disciplina de Práticas Curatoriais, ministrada pela Prof. Dra. Ananda Carvalho. São eles: Ester Matos, Edward Rodrigues, Arthur Nunes e Thiago Choas. Jaíne conversou com o grupo sobre os seus trabalhos artísticos, processo criativo e projeto curatorial da exposição de arte O peso da água, que esteve em exibição na Galeria Homero Massena até 05 de julho de 2025.
Nesta transcrição, foram eliminadas redundâncias e repetições naturais da linguagem oral, preservando a essência da fala da artista. Procuramos manter o tom coloquial em suas respostas, realizando apenas mínimas alterações ortográficas e gramaticais para facilitar a leitura. O termo “Nós” refere-se ao grupo de entrevistadores e “Jaíne” indica as respostas da artista.
Sobre a artista: Jaíne Muniz é artista visual e pesquisadora com formação em Artes Visuais pela UFES, e atualmente, é mestranda do programa de pós-graduação em artes da UERJ. Destaca-se, por suas produções artísticas que abordam as relações humanas por meio da arte abstrata, com ênfase na materialidade da água e o seu peso emocional. A artista constrói uma relação íntima com as memórias e afetos de suas experiências de vida, expressando por meio de telas com pinceladas nas cores azul, vermelho, amarelo e verde. Participou de exposições coletivas no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa (Porto Alegre - RS), Galeria Janete Costa (Recife - PE), Museu de Artes do Espírito Santo (Vitória - ES), entre outros. Em 2025 expôs sua primeira exposição de arte individual, O Peso da Água, na Galeria Homero Massena (Vitória -ES), onde também assina como curadora.

ENTREVISTA COM JAÍNE MUNIZ
NÓS - Como você define o conceito central da sua obra?
JAÍNE - Tudo está bem envolto no nome, o conceito do peso da água. Já tem um tempo que os meus trabalhos tem uma relação muito forte com as águas. Em 2023, eu fiz uma residência com a Matheusa, Tempo de mar, em Nova Almeida, e muitos trabalhos saíram dessa imersão.
Eu já tinha, obviamente, uma relação desde pequena com o mar, com essa percepção de água. Quase morri afogada quando era bebê e tem uma história na família que rola sobre isso. Todo mundo fala que de água a Jaíne não morre mais, porque a água quase a levou.
Isso me acompanha muito, por isso, na residência, quis fazer esse projeto para uma exposição. Ter esse espaço pensando em um lugar que de fato fosse aconchegante, em que as pessoas pudessem chegar e sentir as relações que tenho com os trabalhos de arte. Na época da escrita desse projeto, eu estava pensando muito sobre amor, o sentimento central desta exposição como um todo. Era muito nesse sentimento de sentir o amor, mas também a desilusão, aflição e angústia que vem junto, porque o amor não é só maravilhas. E assim me veio este nome: O peso da água.

NÓS -Jaíne, você já se via como a curadora da sua própria exposição?
JAÍNE -Não. O projeto precisa que já tenha uma ideia curatorial e as escolhas dos trabalhos. Eu mesma mandei para o edital, mas, no processo desse ano, para colocar o dinheiro nas coisas para que tudo funcionasse, eu tive que procurar um curador para falar sobre o meu trabalho. Toda vez que tentava falar com alguém, eu lembrava que não tínhamos muito tempo, e que eu não tinha uma relação próxima com algum curador no momento. Esse é um processo de muito tempo, e acho que já estava fazendo essa curadoria. Me percebi fazendo a curadoria dos trabalhos.
NÓS -Então esse foi o seu maior desafio nesse processo da exposição?
JAÍNE -Foi um momento de escolha também, principalmente em relação a dinheiro. É uma questão real que se enfrenta quando se monta um projeto para um edital. Como que a gente aloca os recursos que temos para incluir todo mundo? Ou eu contratava um curador, ou retirava o carpete que queria colocar na exposição. Era assim: retirar algo que seria muito essencial para poder colocar mais coisas que poderíamos não dar conta. Foi essa a escolha, mas também muito confiante, porque estava definido para mim.
NÓS -Como funciona o processo de curadoria na Homero Massena? É diferente de outras galerias?
JAÍNE -Acredito que tem muito haver com querer criar essa atmosfera da exposição, esse peso dessa água. Eu fiquei pensando muito sobre mergulho e a minha experiência de estar na praia. Eu amo ir à praia. Adoro esse momento de estar na areia curtindo o sol. O momento de entrar na água, colocar os pés, sentir as ondas e dar o primeiro mergulho. As escolhas dos meus trabalhos buscam essa sensação.
O projeto inicial, possui trabalhos que foram feitos lá na residência que se relacionam com as águas, outras sensações e sentimentos. Tinha mais cores amarelas e verdes. Quando fui selecionar os trabalhos que seriam expostos, parecia que estas cores não causavam as mesmas sensações. A maior tela foi o último trabalho a ser feito, por isso que tem muito mais vermelho e azul. Uma relação mais forte e profunda.
NÓS -O projeto mais significativo para a construção da sua exposição foi a sua residência, correto?
JAÍNE -Sim. Ela foi um pontapé inicial.
NÓS -Você se inspirou em outras obras ou artistas?
JAÍNE -Eu gosto muito do trabalho da Georgia O'Keeffe. O trabalho dela me chama muito a atenção pelo uso das sombras e das cores. Ela não é uma artista abstrata, mas retrata a natureza de uma maneira muito específica, que eu gosto muito.
NÓS -E artistas capixabas? Tem alguém que te inspira?
JAÍNE -Eu tenho um respeito, que me move muito, e são os trabalhos de desenho nas oficinas da Castiel Vitorino e seu método elementar. Foi muito bom participar de algumas oficinas dela porque ela tem esse exercício muito forte de uma percepção do corpo e uma externalização por meio de uma prática. Era algo que eu já fazia, mas me tornei mais consciente a partir do trabalho dela.
NÓS -Qual seria a sua relação com a expografia da sua exposição? Ela realmente nos imerge nesse ambiente. Estávamos observando, e a sensação era de que estávamos no fundo do mar, e que suas obras, embora falassem sobre o mar, pareciam pontos de luz. Sabemos que existe uma influência estética para causar essa sensação, mas qual seria a sua relação com essa ambientação criada?
JAÍNE -É muito importante, porque eu já tinha uma ideia como espectadora de exposições e espaços de arte, mas eu precisava de uma pessoa que também tivesse esse olhar específico. A parceria com o Matheus Borges foi sensacional, porque eu cheguei para ele e falei: “Olha amigo, eu quero essa sensação”. Lembro que na primeira reunião que tivemos para falar sobre o projeto, eu chorei muito, pois estava tão imersa em sensações que me movimentavam para a exposição, e isso me mexeu muito. A minha equipe também viu como eu estava para poder criar isso.
Foi muito essa parceria de contato em que eu conseguia falar, mas também apresentar os trabalhos e perguntar: “Eu tenho esse trabalho aqui, mas você acha que vale a pena?”. Eu tinha uma percepção para a parede do fundo, mas ele falou assim: “Não, eu acho que a gente deveria manter tudo azul porque é isso que vai criar essa atmosfera”. Esse é o trabalho dele, é o que se dedica para fazer. Foi essencial também, pois se fizesse tudo só do meu jeito, não ficaria dessa forma.


NÓS -Essa foi a sua primeira curadoria ou você já foi curadora de outra exposição?
JAÍNE -Assinando como curadoria, seria a primeira, mas já estive em outros projetos em que fazíamos uma curadoria colaborativa. Teve a exposição na Casa Porto Habitar o contraespaço, onde queríamos estar ali e fomos conversar com as pessoas que gostariam de participar também. Numa reunião cada um foi falando sobre os seus trabalhos e fomos decidindo como seria a narrativa daquele tempo na exposição.
Também teve trabalhos da UFES. Eu lembro que o David [Ruiz Torres], de História da arte IV, fez uma proposta para a gente de um trabalho de curadoria para uma exposição, a partir da disciplina. Eu e meu amigo escolhemos falar sobre a percepção cubista no momento do seu surgimento na história da arte, principalmente a relação com as máscaras africanas nesses trabalhos europeus. Eu sempre tive esse olhar de querer entender para poder criar essa narrativa, e curadoria é um pouco sobre isso também. Sobre o que nós queremos reverberar.

NÓS -Durante o planejamento da sua exposição, você sentiu que teve a influência de outras exposições ou seu processo de elaboração foi muito pessoal?
JAÍNE -Foi bem pessoal. Eu já absorvi alguma, mas não consigo lembrar no momento. Ano passado eu morei no Rio, então estava mais próxima. É diferente como modifica a relação de espaços que temos para visitar e a rotação do que está acontecendo. No Rio, eu consegui ter muito mais contato com espaços de arte e estar imersa. O meu projeto surgiu muito antes, e o seu nascimento veio de um lugar muito pessoal. Foi um compilado de muitas experiências.
NÓS -O conceito da sua exposição fala muito sobre a materialidade da água, mas também fala dos sentimentos humanos. Agora que seu projeto de exposição está pronto, como você falaria sobre o seu trabalho?
JAÍNE -Hoje eu vejo que a exposição é um retrato de como eu lidei com o amor em um momento específico da minha vida. Eu senti que não dei conta de segurar o peso desse amor. É muita coisa, e sinto que a exposição é a culminância disso.

NÓS -As suas obras possuem alguma crítica social e ambiental?
JAÍNE -Não explicitamente, mas a forma como eu me relaciono na vida com a natureza e os seres. Eu não conseguiria fazer um trabalho assim, se não respeitasse o que está à minha volta. Eu sou muito tocada por tudo e pela natureza principalmente. Em algum momento do meu trabalho, eu segui essa linha de querer fazer críticas. Foi um caminho importante, mas também muito danoso para mim.
Hoje eu vejo a minha escolha de fazer abstração como uma escolha política. No meu trabalho acadêmico, faço uma pesquisa que analisa como a arte contemporânea cobra de artistas negros para falarem de uma narrativa específica para a manutenção de um sistema. Eu me via muitas vezes, tentando fazer no figurativo e na performance, um lugar que eu não queria estar.
NÓS -Particularmente, adoramos os seus vídeos, pois nos lembra muito o trabalho da Márcia Wayna Kambeba. Ela menciona que dá água viemos e para a água voltaremos. Sua narrativa fala sobre o rio que corria pela sua tribo, e que hoje já não existe mais, devido à seca.
Quando olhamos para os seus vídeos, lembramos que os cientistas dizem que a água tem memória. Seus vídeos sobre a água, com aquelas colorações e uma memória de um lugar que não existe mais, tocam em um espaço de luta. Se você não lutar por aquele espaço, ele deixará de existir, restando apenas o vídeo. Após conhecer o seu trabalho, percebemos que nossas memórias são aquosas. O seu trabalho está perfeito! Amamos demais. Ficou Incrível!




Comentários