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Estética de rua, dentro e fora com Renato Ren e Karenn Amorim

Relato por Samylla Oliveira*

No dia 20 de setembro de 2022, na Galeria de Arte Espaço Universitário (GAEU), iniciou-se as comunicações da exposição PREZA!. A pesquisadora e curadora Karenn Amorim mediou a conversa apresentando o artista visual independente e co-curador da exposição, Renato Ren. A conversa, aberta ao público, tratou da trajetória e da pesquisa do artista relacionadas à estética de rua.


Karenn Amorim e Renato Ren na Comunicação realizada na Gaeu. Fonte da imagem: Site Galeria de Arte Espaço Universitário

Renato começou sua fala contando que é ex-aluno da UFES (ingressou no curso de Artes Plásticas em 2013). Sua proposta de Trabalho de Conclusão de Curso foi O Graffiti circulando entre instituições de arte e a rua, já que iniciou com essa técnica em 2002, na cidade de Viana. Ele defendeu a modalidade artística buscando a manutenção da essência do Graffiti, da intervenção urbana através da linguagem tradicional que é produzida com letras (Wild Style).


Seguindo a comunicação com apresentação de slides, Renato relatou como foi para ele vivenciar o que ele chama de transição entre a arte de rua – com o Graffiti ilegal – para a instituição de arte e mostrou algumas de suas obras com a qual participou de inúmeras exposições coletivas e individuais.


Dentre elas, o artista foi convidado a participar da exposição coletiva ELO (Spaço Mahalo, Vitória, 2010) cuja proposta era experimentar levar o Graffiti para o espaço privado. Em 2014, como aluno da UFES, participou da exposição Ocupa GAP com a pintura Aqui dentro não é Graffiti, que problematizava a linguagem dentro e fora de uma galeria. A frase título da obra, de acordo com o artista, criava uma contradição com o público que afirmava que o que estava exposto era Graffiti mesmo estando dentro de uma exposição de arte.


Em uma exposição coletiva do DAVisuais, o artista apresentou a sua obra “Não contém Graffiti”, composto por uma lata de spray vazia e um rótulo contendo o título da obra e a descrição do material que ele utilizou para fazer o objeto. Para explicar ao público presente na comunicação como ele chegou na ideia de fazer esse objeto, Renato propôs uma reflexão sobre a técnica, no qual o mesmo objeto, uma lata de tinta spray, pode ter conotações e recepções completamente diferentes dependendo do espaço no qual ele está inserido.


A respeito das exposições individuais, Ren conta sobre a sua primeira exposição sediada na Galeria Homero Massena, Táticas de Graffiti e não-graffiti (2017), no qual o artista levou conceitos e técnicas do graffiti e de arte contemporânea para a exposição. Exemplificando o conceito dessa proposta, o artista mostrou ao público presente algumas das obras expostas na galeria no formato foto-documento. A intervenção urbana Manutenção histórica - calçada portuguesa consiste em 44 objetos de cerâmica em formato de pedra portuguesa com uma escrita gravada, que o artista espalhou pela cidade de Vitória. Sua poética propôs a discussão na história de quem o influenciou. Outro trabalho interessante com o mesmo princípio do trabalho citado anteriormente, intitulado Isto é graffiti é composta por dois tijolos moldados em concreto com a frase gravada em baixo relevo. O artista fez duas intervenções com estes tijolos em chão de paralelepípedo na cidade de Vitória - ES. A obra Crime ambiental/ Vanda art proposta com as técnicas do estêncil, spray sobre papel e cola PVA, foi apresentada no formato de lambe-lambes em seis intervenções urbanas. O conceito da intervenção, segundo o artista, foi usar simbolicamente a tragédia do rompimento da barragem de Mariana, ilustrada com a imagem aérea dos dejetos que desaguaram no mar. O artista chamou estes objetos de “pixação do meio ambiente”, revelando uma crítica à contradição e hipocrisia do sistema que condena a prática da pixação nas cidades como crime ambiental.


Outra exposição individual do artista intitula-se: É tempo de lutar (Clã Arte Studio, Vitória, 2022), em que Renato propôs, em conjunto com a diretora da galeria, expor pinturas com a técnica do graffiti em um suporte de tela tradicional, configurando outra linha de pesquisa e experimentação do trabalho. A partir dessa fala, Renato volta a afirmar que o trabalho se comporta de formas diferentes dentro da instituição e no espaço urbano das cidades.


Terminando a fala e apresentação de Renato Ren, a mediadora Karenn Amorim retomou a contextualização do tema em questão nos espaços institucionais e urbanos, enfatizando que não há dúvida de que esta linguagem seja arte e a importância de manter sua autonomia dentro dos espaços. E com isso Karenn propõe um questionamento: “Como se posicionar frente a indústria preservando os conceitos originais do Graffiti?” Como elaborar um equilíbrio entre os dois espaços?


Com a implicação desse questionamento, a mediadora propôs pensarmos num contexto hipotético, no qual uma instituição tenha interesse no trabalho de um(a) artista grafiteiro(a) e entre em contato com ele(a) e como seria essa relação, instituição/artista e o Graffiti em termos práticos. Assim a mediadora implicou um pensamento pertinente à conversa: “A partir do momento em que a instituição entra nesse cenário, o graffiti não é mais grafitti, é pintura?”


Como o próprio artista, Renato Ren apresentou em sua fala, observa-se que há diferenças muito claras entre a pintura e o graffiti, sendo que o principal diferenciador é o espaço. Assim, Karenn reafirma as palavras do artista, fazendo-nos pensar sobre os benefícios e malefícios da presença institucional implicada sobre o trabalho de um(a) grafiteiro(a).

Seguindo a mesma perspectiva, Karenn e Renato falam sobre a comercialização dessa técnica. Deixam claro que o graffiti se tornou vendável para as marcas como estratégia de publicidade, dando a entender que as marcas usam desse apelo gráfico visual para se promoverem e que isso se torna problemático pelo ponto de vista de Renato. Para ele, há uma perda da essência de todo o conceito envolvendo o “fazer graffiti” e que a perspectiva comercial é que ele seja “domesticado”.


Renato faz uma breve contextualização histórica após a fala de Karenn sobre como surgiu o graffiti na cidade de Nova York na década de 60. Ele conta que a tinta spray começou a ser utilizada na década de 50 e que em 1975 houve a primeira exposição com artistas grafiteiros pioneiros na cidade de Nova York. Esses artistas levaram suas obras em tela para a exposição com a cultura do hip hop. Renato diz que não havia, naquela época, o questionamento que temos hoje sobre a técnica do Graffiti ser usada “dentro e fora” da instituição, considerando a forma que ela é normalmente apresentada (na parede/muro).


E por fim, Renato expõe “um medo”, de que a indústria cultural imponha um movimento de domesticação do Graffiti, no sentido de uma linguagem transgressora, livre, virar um movimento de “limpeza” dos espaços urbanos onde só exista “Graffiti bonito” que agrade aos outros. O artista ressalta: é preciso pensar na forma de lidar com o espaço urbano.



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* Samylla Oliveira é estudante do Bacharelado em Artes Plásticas na Ufes. Este texto foi desenvolvido como atividade do projeto de extensão Processos de Criação em Curadoria.



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