Laboratório de Educação Museal: espaço-tempo para experiências estéticas

Ensaio por Franquilandia Raft


Resumo: O LEM é uma rede colaborativa que une professores com o objetivo de realizar pesquisa, prática e produção de conteúdo relacionadas ao protagonismo dos sujeitos em vivências no campo da arte e da cultura. Neste ensaio, apresentamos as bases e estratégias de trabalho do Coletivo, como agente de fomento à formação de público nas exposições de arte em museus da Grande Vitória. A educação museal como um dos pilares da atividade artística visa fomentar fruição, participação e postura crítica e isso alcançamos a partir do protagonismo dos professores que encaram o desafio de fazer pontes entre museus e escolas.



Na gênese do LEM – Laboratório de Educação Museal já estavam instaladas a inquietação e a sede de experimentar vivências na fronteira do que designamos arte, cultura e educação. A semente do que viria a formar o Coletivo já era cultivada entre alguns pesquisadores que se reuniam nas formações de professores da Galeria Homero Massena desde o ano de 2013. Havia desde então um inconformismo com a pouca visibilidade dos artistas locais nas escolas públicas capixabas. Percebíamos a riqueza das exposições temporárias dos museus e galerias de arte da Grande Vitória e considerávamos o desperdício de ter tanto conteúdo e materiais educativos que foram produzidos para as exposições esquecidos logo que ela findava.


Inicialmente, longe de pensar uma estrutura, o que observamos foi um movimento bastante orgânico, em relatos orais de vivências de uns poucos professores que levavam o material educativo das exposições temporárias da Galeria Homero Massena para suas práticas de sala de aula entre os anos de 2013 e 2016. O laboratório surgiu da necessidade de partilhar esses conteúdos, ideias e práticas, pautado sobretudo no protagonismo dos professores pesquisadores e no respeito à identidade dos territórios que atuavam. O Coletivo só veio a receber a designação de LEM no ano 2018, quando a Prefeitura de Vitória acolheu o projeto-piloto para os educativos dos museus Casa Porto das Artes Plásticas, Museu Capixaba do Negro – MUCANE e Museu Histórico da Ilha das Caieiras Manoel dos Passos Lyrio, o Museu do Pescador. A partir dessa parceria com as Secretarias de Cultura e de Educação do município de Vitória, o LEM se estruturou, de fato, como um Coletivo, com cronograma de ações, planejamento anual, pesquisa e produção de conteúdo.


Formação de professores no Museu Capixaba do Negro – MUCANE em 2018.

O LEM é, em essência, uma rede colaborativa de professores pesquisadores de educação museal, investigando a arte e a cultura no Espírito Santo. Temos a pretensão de ser uma ponte entre o professor e o artista local, um gerador de encontros significativos entre museus e escolas, entre obras de arte e público. Para nós, investir na ampliação do repertório do professor é acreditar no seu potencial multiplicador de ideias, o que resulta em maior chance de fruição da arte pelo público em idade escolar. Propomos atividades que estimulam a criatividade, a escuta, a construção colaborativa; mas sobretudo que instigam, questionam e provocam os sujeitos. Nossa prática está fortemente influenciada pelos ideais emancipatórios de Paulo Freire e pelas reflexões sobre interculturalidade de Nestor García Canclini. A cada ciclo, com novos temas no foco de nossas pesquisas, novas referências teóricas surgem. Atualmente, lemos Angela Davis, bell hooks e outras autoras que enxergam o combate aos diferentes tipos de opressão como uma luta real e constante do feminismo, do antirracismo e do anticapitalismo.


Em 2018 realizamos atividades com professores e estudantes da Grande Vitória em dez exposições dos museus da Prefeitura de Vitória. Formação de mediadores, formação de professores, encontros com artistas e visitas mediadas para escolas e outros grupos. Uma força-tarefa que envolveu além dos artistas e professores, as equipes da Casa Porto das Artes Plásticas, do Museu Capixaba do Negro e do Museu Histórico da Ilha das Caieiras Manoel dos Passos Lyrio, em ações educativas nas exposições temporárias selecionadas via edital Funcultura. Muitas dessas exposições tiveram desdobramentos didáticos em escolas da Grande Vitória a partir dos materiais educativos e das formações de professores.


Ainda em 2018, o LEM foi inscrito, selecionado e apresentado no MicBR 2018. O MicBR, evento internacional realizado pelo extinto Ministério da Cultura em parceria com a Apex-Brasil – Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, reunia o mercado das indústrias criativas da América Latina. Na edição 2018, em São Paulo, estiveram quinhentos empreendedores culturais de oito países, discutindo ideias e práticas inovadoras em distintos campos da cultura: moda, jogos eletrônicos, gastronomia, circo, artes cênicas, literatura, design, música, audiovisual, museus e patrimônio. Apresentamos o LEM como uma solução para educativos em museus que se nutre de práticas de valorização do artista local, criando vínculos concretos entre arte e vida. Uma ideia relativamente simples de conectar museus e escolas, mas potente por sua capacidade de reverberar na comunidade escolar criando um movimento de interesse por arte contemporânea, artistas locais, exposições e equipamentos culturais.


Crachá de participação do LEM no MIC BR 2018.

Em 2019, fechamos uma parceria com o GEPAE – Grupo de Estudos e Pesquisas do Arte na Escola/Polo Faculdade Novo Milênio e nos dedicamos a pensar a cidade como um museu. Tanto o ciclo de Oficinas Ampliando Olhares no Ensino da Arte, quanto às visitas dos professores aos ateliês dos artistas – Rosindo Torres, Ernane Batista, Celso Adolfo e Luciano Feijão, foram momentos importantes de contato dos professores com temáticas, materiais e técnicas artísticas. Parte do grupo esteve no Origraffes – Festival do Graffiti e da Cultura Hip-hop, na Serra, e outra parte do Coletivo se dedicou às ações de patrimônio, vivenciando a Romaria dos Congueiros, na subida do Convento da Penha, em Vila Velha e o Carnaval de Máscaras do Congo de Roda d’Água, em Cariacica. Também vivenciamos a visita ao Terreiro Bantu do Morro da Piedade, com entrevista ao guardião Renato Santos. Em dezembro de 2019, seis vivências dos professores nos ciclos 2018 e 2019 foram apresentadas no Seminário Diálogos com o Ensino da arte: Relatos de experiência e práticas de pesquisa docente, no auditório da Faculdade Novo Milênio, em Vila Velha.


Formação de professores na exposição Da ilha, no Museu Histórico da Ilha das Caieiras Manoel dos Passos Lyrio, o Museu do Pescador.

Em 2020, as circunstâncias nos conduziram a uma adaptação forçada à virtualidade. Com o Coletivo interagindo à distância, via Instagram, realizamos quatorze lives no #prosalem, espaço criado para a escuta de projetos e experiências de artistas, professores e profissionais da cultura. Nesta mesma vertente, criamos o #bibliolem, a biblioteca virtual do LEM, com materiais educativos de exposições recentes, cedidos pelos artistas parceiros.


Com encontros de formação de professores buscamos criar laços entre professores, museus, ateliês e artistas locais para ampliar o horizonte do ensino da arte no Espírito Santo. Realizamos educação museal em sentido ampliado. O Coletivo tem como campo de pesquisa os museus, galerias de arte, ateliês de artista, espaços da arte urbana, da educação patrimonial material e imaterial. Atuamos de forma independente e buscamos parcerias com ambientes e agentes culturais interessados em promover troca de conhecimento nos campos da arte e cultura. Os professores atuam como agentes multiplicadores de ideias nas escolas que trabalham, levando vivências e práticas do laboratório como atividades que conectam a educação formal e educação não formal. Os encontros de formação permitem aos professores o exercício de pensar a arte em processo, os múltiplos contextos e repertórios artísticos locais, o corpo da metrópole como espaço cultural e a relação dos sujeitos com os territórios nos quais circulam.


A proposta do LEM é realizar um educativo em museus que, em suas práticas, valorize o artista local e que, esse artista, vivo, que está em plena atividade possa ser o ponto de partida para chegar a conteúdos mais abrangentes de História da Arte ou àqueles conteúdos já consagrados nos livros didáticos, cada vez mais presentes nas aulas de arte da escola pública. Para falar de arte urbana, por exemplo, em uma escola da Serra, em turmas de ensino fundamental é mais coerente ter como ponto central do conteúdo os muros do bairro Feu Rosa do que pegar um texto no livro e ler sobre a gênese e a história do graffiti internacional. Desde 2016, o Origraffes ocupa artisticamente os muros, inclusive as fachadas das maiores escolas públicas do bairro. Considerando que cada artista tem seus referenciais e influências, o professor pode sim abordar a história da explosão do Graffiti em Nova York e a atuação dos grafiteiros contemporâneos mundo afora, partindo dos exemplos concretos de Feu Rosa, artistas que são gente de carne e osso que circulam na mesma periferia que o aluno da escola pública. Isso é real e gera interesse, curiosidade, afinidade. Não tem sentido que o professor de artes das crianças que passam por essa galeria a céu aberto, no percurso para a escola ou em outros deslocamentos cotidianos, desperdice esse conteúdo porque não está posto com todas as letras no seu plano de ensino.


Visita ao ateliê de Rosindo Torres.

Com o LEM, inserimos nosso grão de areia na luta por respeito, igualdade, diversidade e liberdade de expressão. Que o professor, o artista, a obra, o museu e os profissionais de arte e cultura sejam sempre agentes de fomento: indagando, estimulando, questionando, provocando e escutando os sujeitos. E que esses sujeitos participem ativamente de expressões e manifestações culturais a partir de seus repertórios, com liberdade de se expressarem e criarem conexões reais entre arte e vida.



Franquilandia Raft

Artista plástica, Especialista em Formação de Mediadores e Especialista em Gestão Cultural. Integrante do Ateliê 904, sua arte se vincula ao papel como suporte da imagem: cria gravura, livro de artista e arte postal. Atuou como gestora e educadora, trabalhando em museus do Espírito Santo por seis anos consecutivos. Idealizadora e coordenadora do LEM – Laboratório de Educação Museal, um coletivo de professores pesquisadores que investiga arte e cultura no Espírito Santo. Em 2020, iniciou o curso de Mestrado em Estudos Avançados em História da Arte, na Universidade de Barcelona, Espanha.



Esta publicação faz parte da seleção realizada a partir da chamada de ensaios sobre Circuitos da arte: Memórias e Expansões.