Exercícios do olhar: Memórias da exposição Urbanorâmicas (2012)

Texto por Igor Degobi


Em uma ilha que não é minha, sob a arquitetura de prédios que resistem. E deles, sobras de objetos e de vazios que não são meus. Urbanorâmicas (2012), projeto de Gabriel Borem, constrói-se através de um percurso pela ilha de Vitória, ES.


A proposta do projeto Urbanorâmicas, envolveu um trabalho físico e mental de observação e coleta de resquícios do que é corriqueiro pela cidade, a fim de construir paisagens unicamente urbanas com objetos e afetos da vida cotidiana.


Teaser da exposição Urbanorâmicas

Na Galeria Homero Massena, onde a exposição aconteceu, as obras se organizaram a partir de uma poética de acúmulo de materiais e a partir d’um diálogo direto com a composição de pinturas e cartografias de metrópoles contemporâneas. Dialogando com a escrita da autora Sylvia Plath sobre uma prática do olhar e da criação, a produção de Gabriel Borem em suas paisagens-rastros se realiza a partir de um ato de evidenciar a plasticidade do descartável.


Através da poesia, Sylvia Plath exalta o olhar como um ato criador, que delega o juízo de beleza e o afago sobre a visão da cidade. O olhar, aqui, existe como uma rede de relações do corpo com o que, supostamente, é alheio a nós, mas que nos move coletivamente:

Eu? Eu caminho sozinha; A rua da meia-noite Gira por debaixo dos meus pés; Quando meus olhos cerram Essas casas formosas todas somem; Por um capricho meu Sob as arestas dos anéis celestiais da lua No alto penduram.

Detalhe da obra DoisPicosQuatroPedras, Gabriel Borem, 2012 Fotografia por Lucas Aboudib Disponível aqui. Acesso em ago. 2020.
OndeoSolNuncaSePõe Gabriel Borem, 2012 Fotografia por Lucas Aboudib Disponível aqui. Acesso em ago. 2020.

A relação do resquício, da cidade e do olhar se faz bem presente em Urbanorâmicas, quando, o exercício de mobilidade e de observação se conectam e dão a ver, num contexto de criatividade artística, a autenticidade da paisagem de Vitória. Embora suas formas não sejam canônicas de um vanguardismo modernista, a relação das obras que compõem a exposição dizem muito de um lugar fortemente marcado no imaginário do artista, tensionando as noções de paisagem e lugar sob a perspectiva única de Gabriel Borem e seus laços com a ilha de Vitória.


DasEscamasDesprendidas Gabriel Borem, 2012 Fotografia por Lucas Aboudib Disponível aqui. Acesso em ago. 2020.

Uma escolha baseada em afetos, uma construção que se dá a partir de narrativas silenciosas que encontram o olhar, entre plasticidades fictícias, mas verdadeiras, e a necessidade de enxergar a beleza e o nostálgico como forma de se manter um corpo-vivo em meio ao trânsito das relações com a industrialização e práticas contemporâneas de colonialismo através do giro do capital.


Sylvia continua:

Eu Faço casas encolherem E árvores se apequenarem Ao me distanciar; a coleira do meu olhar Movimenta as pessoas-fantoches Que, ignorantes de sua pequenez, Riem, beijam, se embriagam, Sem suspeitar que se eu escolher piscar Elas morrem.

Evidente para mim, é que desprovidos de consciência, mas não de afetos, resquícios e resíduos objetuais cotidianos compõem uma narrativa a partir do olho de quem os observa. Assim como, também, emerge uma reflexão sobre a plena capacidade da morte de uma narrativa antes mesmo do despertar de uma potência através do olhar único de um indivíduo e suas experiências de vida.


DoisPicosQuatroPedras Gabriel Borem, 2012 Fotografia por Lucas Aboudib Disponível aqui. Acesso em ago. 2020.
AchadaemPedaços Gabriel Borem, 2012 Fotografia por Lucas Aboudib Disponível aqui. Acesso em ago. 2020.

O pressuposto quase arrogante que perambula esse texto não é de propor uma prepotência após o ato de leitura, mas, acentuar, através da memória dessa exposição, que a possibilidade da criação de narrativas e afetos pode se encontrar através das menores-maiores coisas, das coisas medianas e das coisas que ninguém se importa, como entulhos de construções e restos de habitações. Tudo isso impregnado de memória e de política.


Gabriel Borem constrói, a partir da distorção da convencionalidade de paisagens presentes em pinturas e retratos figurativos, uma lembrança da presença humana em sua forma mais contemporânea. E, assim, acentua as relações entre a presença como, necessariamente, um devir do vestígio.

Referências


PLATH, Sylvia. Soliloquy of the Solipsist. (Tradução minha)