Transfigurações: Memórias da exposição Torções (2016) de Luciano Feijão

Texto por Igor Degobi

Essa foi uma experiência viva de torção, que indica a urgência de se ultrapassar o que está naturalizado na materialidade do sofrimento como lógica estatutária. Urgência de desestabilizar o sistema vigente através das torções radicais de sentido nos componentes materiais e imateriais que contribuíram para a naturalização da escravidão do passado e para sua atualização no presente. Luciano Feijão, 2016.

A exposição Torções (2016), de Luciano Feijão, ocorreu no Museu Capixaba do Negro Verônica da Pas (Mucane), no centro da cidade de Vitória, ES. A mostra individual do artista propôs à todes envolvides no processo de elaboração do projeto que repensassem a incorporação de frutos do acaso no processo da construção de obras de arte (e de suas próprias realidades). Além disso, ativou uma proposição filosófica para pensar as noções de liberdade do corpo negro.


Me propus a pensar gestos e afetividades outras como metodologias de leitura de mundo presentes nas obras dessa mostra, considerando uma perspectiva que enxerga o corpo e a produção artística como testemunhos. Nessa exposição, Luciano dá continuidade à pesquisa que desenvolveu em sua dissertação de mestrado: Arte e testemunho na urgência do presente: O desenho de Luís Trimano na Série O Negro*.

Torções, 2016. Mucane, Vitória - ES. Fotografias por Werllen Castro e Vitor Lorenção Disponível em: <https://vitorlorencao.com.br/projetos/torcoes/> Acesso em jul. 2020.

Central para essa investigação é o relato de fuga de um negro escravizado, chamado Afonso, que se dizia livre, o negro fujão. Luciano fez essa descoberta ao chegar numa edição de um jornal de Cachoeiro de Itapemirim - ES, intitulado O Cachoeirano. No jornal, que data do fim do século XIX, constava um anúncio com características de um negro escravizado que havia fugido. Um escravo livre. Uma torção entre os ideais de liberdade e da cruel exploração escravocrata.

Sem título, Luciano Feijão, 2016 Imagem cedida por Felipe Gomes

As obras da exposição consistiam em ilustrações que utilizam de métodos e materiais alternativos de desenho, incluindo uma combinação de lâminas, pentes de cabelo, carvão mineral, tintas etc. Em uma entrevista sobre o processo de criação das obras da exposição, Luciano comenta como as marcas realizadas por lâminas sobre o papel, os sulcos ou cortes, são importantes para a sua poética.


É uma técnica que não visa uma plasticidade dentro de uma estética do digerível e do fácil de observar, mas que abre possibilidades para leitura de uma estética da dor e resquícios do trauma colonial, buscando promover diálogos com es espectadores sobre os efeitos de suas próprias ações sob um panorama racial. Nas palavras de Luciano (2016):

Os desenhos dessa mostra disparam o conceito de torção para além de uma forma enigmática, por vezes abstrata ou demasiadamente lúdica, forma que enclausura essa definição essencialmente potente dentro agora de uma proposição institucional. Esse conjunto de desenhos propõe torções progressivas a partir da transfiguração de Afonso, distante, neste momento, de sua condição objetiva e meramente inteligível. Afonso que não mais "se diz livre", pois ele é o próprio corpo da liberdade irremovível. Eis então o mundo que nos chega, que permite produzirmos a torção em nós, em toda a nossa extensão subjetiva, do escravocrata ao escravo.

A concepção da exposição girou ao redor dessa estética, subjetiva como ela é. Felipe Gomes, um dos produtores do projeto (e pessoa que me cedeu enorme parte do material para construção desse texto), conta que a exposição começou a partir de diálogos e não necessariamente com obras finalizadas. Destaca-se o caráter reflexivo da mostra, sua potência em revelar um novo imaginário e uma perspectiva outra acerca da representação da multiplicidade da negritude através da arte contemporânea.


Sem título, Luciano Feijão, 2016 Sem título, Luciano Feijão, 2016 Imagens cedidas por Felipe Gomes

O produtor também acrescentou que a mostra precisou exercer ações educativas de caráter experimental para sua realização efetiva. A produção chegou até o NEAB (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFES) e a partir de uma parceria estabelecida com o núcleo, foi formalizado o Projeto Educativo Torções que realizou as ações educativas da mostra, sob supervisão da professora e doutora Patrícia Rufino (então coordenadora do NEAB).


A parceria com o NEAB levou a um programa de formação de mediadores e de professores à partir de diálogos estabelecidos nas visitações à exposição e em oficinas, que recebiam desde estudantes e professores da rede pública de ensino à pessoas da comunidade ao redor do Centro de Vitória. Essas ações aconteceram como proposições de conversas que pudessem ir além do museu. Buscava-se que atravessassem, além de professores formades pelo programa, e chegassem à salas de aula com discussões sobre direitos humanos, consciência racial e de classe, entre muitos dos assuntos que a exposição se propõe explorar através da arte.

Formação de professores e oficinas da exposição Torções, 2016. Mucane, Vitória - ES. Imagens cedida por Felipe Gomes

Entre a asfixia da fala e o nó do movimento, as questões que se colocam na arte contemporânea sobre o espaço na negritude vão de encontro às transfigurações de Afonso (e Luciano Feijão) em uma busca pela revitalização da representação do Ser negro. O gesto da mão sobre o papel emerge, então, como intercessor de acesso à memória e agente no presente.

* A série de desenhos intitulada O Negro (2005), do artista argentino radicado no Brasil, Luis Trimano parte de apropriações de fotografias de escravos urbanos realizadas no século XIX. Luciano Feijão (2013) afirma que Trimano “é uma testemunha afetiva, aquela que, por aproximação ética revela, através dos desenhos, sua leitura desse extermínio, evidenciando, assim, a base de sua subjetividade ético-política. Segundo Giorgio Agamben, ‘a testemunha responde ao sofrimento do outro sem lhe tomar o lugar’ ”. O texto da citação pode ser encontrado na íntegra na edição IV da Revista do Colóquio do Programa de Pós-Graduação em Artes da UFES, p. 164-169. Disponível em aqui.

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