Entre-lugar: mímicas e ficções da palavra

por Caroline Dunker Fucci e Flávia Sangiorgi Dalla Bernardina


Os trabalhos aqui reunidos possuem um ponto em comum: a palavra. A palavra é lida como espaço intermediário e instrumento de afastamento ou aproximação entre significados, códigos e discursos. Ao contrário de um sistema de linguagem, a palavra nem sempre está vinculada à significação, ou seja, nem sempre expressa ou transmite uma ordem de sentidos. Com isso, as margens para fabulação se expandem. A palavra, como objeto principal desta mostra, circula entre o imaginário coletivo veiculado na internet (inserida no plano dos memes, das redes sociais e dos meios de comunicação) e o contexto institucionalizado da arte contemporânea (assumida como um meio ou suporte para a experimentação conceitual ou formal). Como uma espécie de fio condutor, a palavra é pensada como mímica e ficção. Situando-se entre essas duas vertentes, esta exposição propõe sobretudo uma circulação da palavra em diferentes contextos; da sua aplicação como o fim em si mesma à elaboração de frases, textos, mensagens e significados.


A escolha de seis artistas aqui reunidos é sustentada pelas suas relações com a palavra como objeto de representação visual, assim como território para fabulação. Os trabalhos selecionados apresentam repetições, abreviações, apropriações e jogos de palavras que são inseridos em campos pictóricos. A mímica é entendida como o universo imagético e representativo que, ao traduzir a ausência da palavra, amplia-a, já a ficção é compreendida como o território semântico e poético da palavra, que evoca mensagens e aberturas para novos sentidos. Enquanto os trabalhos de Helô Sanvoy, Rubiane Maia e Daniela Avelar experimentam a palavra como a própria imagem, difundindo-a em campos pictóricos e, portanto, encaixando-se no campo da mímica, as obras de biarritzzz, Alvaro Seixas e Felippe Moraes ecoam discursos carregados de proposições, partindo do pressuposto da ficção.


Em Exercício Cognitivo I, de Helô Sanvoy, o poema fora de foco situa a palavra e a sua imagem em constante estado de transformação, sugerindo uma tensão entre a presença e a ausência de significados. A palavra nunca atinge seu completo potencial semântico, tendo sua aplicação limitada à construção formal. On Line, de Rubiane Maia, segue uma estrutura semelhante, uma vez que o trecho do texto Há uma voz que diz, cala-te. Calem-se todos vocês que estão à beira do abismo é colocado em disputa com palavras e imagens coletadas no Google, formando um percurso que transcorre infinitamente, sem um começo, meio e fim. O trabalho Hoje vou experimentar a palavra talvez, criado por Daniela Avelar em colaboração com a artista sul-coreana Suji Han, também parte de uma investigação da palavra e seus diferentes sentidos no contexto da tradução, expandindo-se para o campo da imagem em relação à linguagem.


Já o trabalho am I overexisting, produzido por biarritzzz em parceria com a página de memes @igrejauniverssauria, segue um caminho distinto: o GIF reflete sobre a multiplicidade de identidades no ambiente virtual, disseminadas através da combinação de palavras e imagens construídas coletivamente. A obra de Alvaro Seixas, publicada em junho de 2021 em sua conta no Instagram, brinca com a própria natureza das práticas artísticas contemporâneas - especialmente aquelas voltadas para o virtual - quando se assume como uma "releitura" ou "citação" de Burocracia (1978) de Anna Bella Geiger. Em Agoniza mas não morre, Felippe Moraes dialoga com as sensações ambíguas provocadas pelo distanciamento social ao destacar versos de sambas-enredo em sua janela na véspera do Carnaval. A ocupação do espaço público-privado conversa com a condição permeável normalmente atribuída ao ambiente digital, particularmente presente no cotidiano da pandemia.


Entre-lugar: mímicas e ficções da palavra transita entre as configurações da imagem como palavra e a palavra como imagem, mesclando e criando universos que não são nem totalmente imagem tampouco totalmente palavra. O entre-lugar, portanto, sugere um jogo entre a mímica e a ficção.



Exercício Cognitivo I, Helô Sanvoy, 2013, 2'18", vídeo

Helô Sanvoy é artista, produtor cultural, arte-educador e membro do Grupo Empreza desde 2011. Sua produção busca a construção de significado através dos diferentes modos de leitura e as lacunas formadas na ausência de material escrito. Em Exercício Cognitivo I, um vídeo transmite uma imagem de um poema não identificado. Fora de foco, a imagem das palavras transita entre uma mancha ilegível e a sua possível identificação, apresentando esse estado de tensão entre a mímica e a ficção da palavra, sem finalmente se completar em nenhum dos dois pontos.


On Line, Rubiane Maia, 2020, trabalho digital, dimensões variáveis

Rubiane Maia é artista visual e vive entre Folkestone, Reino Unido e Vitória, ES, Brasil. Sua poética propõe um hibridismo entre a performance, o vídeo, a instalação e a escrita, com incursões ocasionais do desenho, pintura e colagem. O vídeo On Line é um desdobramento do texto Há uma voz que diz, cala-te. Calem-se todos vocês que estão à beira do abismo. Na obra, imagens obtidas no Google, através de filtros de busca utilizando palavras como violência, violência policial, população negra, protestos, entre outras, intercalam o texto digitado da esquerda para a direita. Na exibição em looping, que embaralha o começo e o fim, a artista propõe desierarquizar a relação entre palavra e imagem.


Hoje vou experimentar a palavra talvez 오늘 나는 단어 아마도로 하루를 시작 할 것이다, Daniela Avelar em colaboração de Suji Han, 2019, 3'34'', vídeo

Daniela Avelar é artista e escritora. Em suas obras, pesquisa a apropriação de textos, para propor outras discursividades, usos e contextos. Na obra hoje vou experimentar a palavra talvez, que tem início na residência Enter Text, na Finlândia, no ano de 2019, a artista reflete sobre as questões que envolvem a tradução num exercício de trocas de imagens e textos.


am I overexisting, biarritzzz, 2020, 23''', GIF

biarritzzz é artista transmídia que trabalha com as imagens em movimento e o mundo da internet. Inaugura a linguagem de desktop e GIF art como live visuals/videomapping no Brasil. A obra am I overexisting foi produzida por biarritzzz em colaboração com os membros da página de memes @igrejauniverssauria. A colagem em formato GIF reflete sobre o excesso de conteúdo disponível na internet e traz inúmeras referências de um imaginário construído coletivamente. A justaposição de palavras e imagens transpõe o embaralhamento de identidades e vivências no espaço virtual, expandindo também as possibilidades do GIF enquanto ferramenta artística.


Sem título, Alvaro Seixas, 2021, post do Instagram, extraído do Instagram @alvaroseixas, publicação de 9 de junho de 2021.

Alvaro Seixas explora as ideias de “pintura”, “abstração” e “apropriação” e como esses conceitos se relacionam com o panorama artístico-cultural atual. Recentemente, o artista tem incluído, em seus desenhos e pinturas, palavras e textos, valendo-se de sua força narrativa, teórica e crítica, mas sem deixar de encará-los como valiosos elementos visuais e sensíveis. Em sua conta no Instagram @alvaroseixas, o artista compartilha trabalhos que atravessam o universo do meme como força crítica ao sistema institucional da arte contemporânea.


Agoniza mas não morre, Felippe Moraes, 2021, néon, dimensões variáveis (20cm de altura)

O artista carioca Felippe Moraes transita entre suportes - da fotografia, a performances, vídeos e instalações. Durante a pandemia, em resposta à melancolia do momento contingencial, o artista recupera versos de samba enredos, na obra Samba Exaltação. Na série Agoniza Mas Não Morre, quatro versos dispostos na janela do seu apartamento no edifício Mirante do Vale, são expostos na véspera do Carnaval. Ao isolar essas palavras específicas da canção, o artista resgata e ao mesmo tempo ressignifica desejos de sobrevivência e alegria, ativando possibilidades de invenções de novos mundos frente ao desolamento.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Os espaços entre aludem a uma espécie de limbo, um contexto em que as coisas se constituem pelas suas transições e impermanências. Já as mímicas, enquanto linguagem corporal, passariam ao largo da informação para expressar sensações. Nas relações de aproximação e distanciamento que se estabelece com a arte, esses espaços desocupados de sentidos, ficcionam e friccionam mundos e abrem campo para delírios e utopias.


Os trabalhos acima apresentam repetições, abreviações, apropriações e jogos de palavras que são inseridos em campos pictóricos para, num exercício de deslocamento, colocar em diálogo e em disputa obras que lidam com a palavra a fim de provocar reflexões sobre as suas funções no âmbito da cultura e do imaginário coletivos, especialmente no ambiente virtual, como é o caso dos trabalhos am I overexisting de biarritzzz, e Agoniza mas não morre de Felippe Moraes, e suas relações com o contexto institucionalizado da arte contemporânea, evidenciado nas obras de Alvaro Seixas e Rubiane Maia.


Para além de uma função acessória de atribuição de sentidos e significados, as palavras, nas obras apresentadas, operam um papel singular. Ao sustentarem a ficção, sustentam a capacidade de fabulação e alcançam outras vias discursivas que ampliam o espectro de recepção das obras, ao passo que atualizam reflexões sobre a memória, a cultura, a arte e os modos de agir e pensar na contemporaneidade.

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Caroline Fucci é pesquisadora e curadora. Graduada em Direito pela PUC-Rio, atuou como advogada em propriedade intelectual, com foco em direitos autorais, e prestou assessoria jurídica a inúmeros projetos culturais. Possui mestrado em História, Crítica e Curadoria em Arte Moderna e Contemporânea pela Universidade de Edimburgo, onde foi bolsista Chevening. Trabalhou na equipe curatorial da Gallery of Modern Art (GoMA), em Glasgow. Atualmente colabora com pesquisa e curadoria na Zait, plataforma de estudos em arte contemporânea.


Flávia Dalla Bernardina é advogada atuante em Propriedade Intelectual, com extensão pela FGV/Direito Rio. Atuação jurídica com ênfase em direito de marcas e direitos autorais. Pós-graduada em Arte e Cultura pela Universidade Cândido Mendes (UCAM/RJ), Mestre em Artes Visuais pelo Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da UFES (PPGA/UFES). Pesquisadora do Grupo de Estudos em Direitos Autorais e Interesse Público da UFPR (GEDAI/UFPR) e membro de Comissão de Direitos Culturais e Propriedade Intelectual da OAB/ES. Integrante da Plataforma de Curadoria, projeto de extensão em processos de criação em curadoria da UFES. Curadora independente.


Esta curadoria em rede foi selecionada via chamada aberta.