Pensar encontros: Conversas sobre curadoria com Clara Sampaio

Relato por Igor Degobi


Recordações de Clara sobre sua trajetória desembocam numa conversa sobre processos curatoriais contemporâneos por artistas-curadoras brasileiras. Durante a conversa, Clara descreve em voz alta o seu mote de trabalho, algo muito poético sobre viabilizar encontros, a produção e dar grande valor ao processual que envolve/da arte.


Isto é o tipo de coisa que faz os olhos de alguém brilharem: ouvir uma profissional do mercado de arte pensando numa negociação que não represente um contra-incentivo para os artistas com quem vai trabalhar, visando não apenas o seu processo efetivado mas trabalhando para que o processo de todas e todos também tenha um bom efeito. A trajetória curatorial de Clara Sampaio começa já em sua graduação em arquitetura e urbanismo, na Universidade Federal do Espírito Santo. A partir dessa formação é possível imaginar como ela enxerga o lugar dessas formas contemporâneas de display e novas tendências expositivas, assim como questões acerca da autoria do curador. Isso pode nos ajudar a entender porque a curadora-pesquisadora pensa bastante sobre como a espectatorialidade se dá no espaço e/ou como o espaço atravessa a obra.


Agora, partindo para a primeira experiência curatorial relatada por Clara Sampaio, a exposição Formas de voltar para casa (2014), que aconteceu em maio de dois mil e quatorze, no Espaço Sala ao Lado, no Centro de Vitória, ES.


Esse pontapé na vida de Clara como curadora foi importante para tudo que sucedeu em sua carreira. Foi em Formas de voltar para casa que essa procura pela prática acessível e de desconstrução do espaço expositivo teve seu marco inicial. Clara e os artistas da exposição contaram com pouquíssimo ou quase nada de orçamento para realizá-la em um espaço reduzido, que constituiu-se num ambiente contaminado, mas não em sentido negativo.


Formas de voltar para casa Espaço Sala ao Lado, Vitória, 2014 Disponível em <https://clrsampaio.wixsite.com/clarasampaio> Acesso em jan. 2020.

É possível perceber nesse exemplo, que inclusive teve sua montagem no dia de abertura da exposição, uma condensação de possíveis estruturas de afeto. O que levanta esse posicionamento é pensar em afetos palpáveis e numa visualidade do processual e no lugar de importância que isso ocupa na construção curatorial de Clara.


O projeto Cápsula (2017) me parece uma tentativa de instigar a busca pela raiz do rizoma que é a arte contemporânea e o seu cruzamento com o processual afetivo. Essa ideia foi realizada pela curadora, em conjunto com o também curador e pesquisador Gabriel Menotti. Foi um projeto contemplado pela SECULT via edital Funcultura (edital de fomento das artes visuais no estado do Espírito Santo). A ideia era que o cápsula se apresentasse como um curso/uma formação para pessoas que já atuavam na cena das artes, com uma forma de pedagogia cultural para diálogo e incentivo a uma formação crítica e afetiva mais prolongada acerca da arte e seus processos.


Cápsula - curso extensivo em arte contemporânea Vitória, 2017 Disponível em <https://clrsampaio.wixsite.com/clarasampaio> Acesso em jan. 2020

Cá Entre Nós foi uma exposição coletiva realizada em 2018. Em parceria com a OÁ Galeria, Clara e Thais Hilal curaram o projeto/a ocupação pensando numa criação de novos contextos. O projeto contou com artistas como Rosana Paulino, Luciano Feijão, Rafael Segatto, Carla Borba, entre outras.


Pensando nesse trabalho em específico, há um diálogo que é criado entre esses artistas. De forma não tão explícita, surge uma forma de desconstrução do espaço expositivo e a criação de uma prática mais acessível que atravessa todo o processo. Cá Entre Nós é realmente sobre o estreitamento de laços entre essas pessoas-artistas.


Em paralelo a tantas produções, Clara dá andamento ao seu doutoramento em Portugal pela Universidade de Coimbra, lugar em que também participa de muitos projetos e fomenta sua pesquisa com a prática. Em 2018, a artista-curadora participou de uma residência artística numa fábrica de lápis portuguesa com quatro artistas e uma professora. A residência foi onde Clara produziu a série Azul, entendendo e revelando uma produção sobre essa experiência na fábrica onde eram produzidos esses lápis azuis, que eram usados como instrumento de censura durante o Estado Novo português.

Série Azul Exposição Desenho Multiplicado, Portugal, 2018-2019 Disponível em <https://clrsampaio.wixsite.com/clarasampaio> Acesso em jan. 2020

Seguindo sua própria tendência, autoinovadora, de explorar meios e espaços entre, Clara Sampaio organizou o ciclo de residências artísticas Entre Nós, em 2019, em parceria com a OÁ Galeria e com o Mosteiro Morro da Vargem, em Ibiraçu.


Entre os primeiros meses do projeto, em junho e julho, a OÁ Galeria recebeu a artista Juliana Pessoa. A artista teve o desafio de habitar a galeria e explorar sua relação com o desenho e o que significava para ela produzir num espaço que não fosse privado, particular, explorando relações que se balanceiam e conversam com solidão, como na escrita, do artista ao produzir suas obras.


Durante a segunda ação do projeto, o artista Alexandre Sequeira veio para o Espírito Santo ser acolhido pela residência no Mosteiro Morro da Vargem, em Ibiraçu. Alexandre se propôs a investigar, sob acompanhamento de Clara, sua relação com estudos de autofabulação e outras novas práticas artísticas que o espaço do mosteiro lhe convidava a explorar.


Entendendo, nas palavras de Clara, que “o outro está em tudo”, o artista realizou uma pesquisa em produção de aquarela durante o processo, que o colocava em contato direto com a natureza ao redor do mosteiro.


Atrevidamente proponho um paralelo para o que pensei do relato sobre o processo de Alexandre Sequeira, e mais profundamente passando por toda a trajetória de Clara, relaciono-o com o que Didi-Huberman (2009) comenta sobre a maneira de Leonardo da Vinci enxergar o processual e o “Ser rio” em seu fazer artístico:

Como na prática de Leonardo, cuja paixão pelos rios e turbilhões criadores de formas é conhecida, não é natura naturata (as criaturas naturais como resultantes de um processo), mas a natura naturans (a criação natural como processo em si) que faz a aposta essencial da intenção artística. Didi-Huberman, Georges. Ser crânio. 2009

Clara e Juliana Gontijo, curadora convidada, propuseram aos artistas da terceira ação ciclo de residências artísticas Entre Nós que explorassem relações de topos, transpondo o sentido geográfico da palavra para relações de lugares ocupados pela arte nos e por meio dos artistas. Essa etapa da residência tinha também com o mote “a permeabilidade como entorno”. A residência contou com acompanhamento das curadoras Clara Sampaio e Juliana Gontijo, além des artistas Barbara Carnielli, Esther AZ, Lorena Pazzanese, Luana Vitra, Marcelo Venzon e Max Wíllà Morais.


Clara ressalta a importância de construir parcerias em sua trajetória e as possibilidades de aprender com o encontro. E, para terminar, convoca os participantes da conversa a usarem cadernos de anotações, desafiando-os a continuar pensando: como transformar uma ideia em projeto?


Texto disponível na íntegra: Download

Conheça mais sobre a prática curatorial de Clara Sampaio neste vídeo aqui.